KL@RA FERNANDES
Os meus "Telhados de Vidro" aguçam-me a Tolerância...
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(des) Encanto

 
24 de Janeiro de 2010
 
As TÁBUAS do teu caixão...
 
 
Amália Rodrigues tem um fado que fala da morte... Sempre amei esse Fado! Agora vivo esse Fado: "As tábuas do meu caixão!"...
O meu Pai sempre trabalhou com Tábuas, era Mestre Maleiro... Fazia daquelas malas grandes de madeira, forradas com folha. Eu adorava ajudar o meu Pai a serrar, a lixar, a pregar... Adorava o cheiro da madeira desfeita em farelo... Ainda hoje pressinto o cheiro de uma carpintaria a kms de distância... E então páro e cheiro e recordo e parece que tudo volta atrás no tempo!
 
O meu Pai partiu Sexta-feira, dia 22... e com ele, partiu a minha essência. Não deixou herança, não deixou terras, não deixou títulos... Deixou-nos apenas, a mim e aos que o amavam. Era conhecido como o Mestre Fernando... O meu sonho era seguir-lhe os passos... Mas como era mulher, não ficava bem fazer trabalhos de homem, por isso estudei e sou Professora! Lembro-me que me chamavas: "Fim do Mundo"... nunca entendi... Ou talvez sempre soubeste, que como tu, eu ia até ao fim do mundo, para conseguir o que sonhava!
 
Ontem, o homem que viveu e morreu das tábuas de madeira, baixou à terra fria e impiedosa, dentro de uma caixa de madeira... Quando as primeiras pás de terra foram lançadas sobre ele, ouvia-se como um martelar e de repente voltei à minha infância quando me pedias ajuda para pregares um prego certeiro. Lembro-me que nunca pregavas de uma vez... Davas uma pequena pancada para o prego ficar no local correcto e só depois é que martelavas com toda a tua força. Hoje percebo a tua ciência Pai... Nada na vida é certo, temos é que encaminhar para o melhor rumo e só depois encetar todas as nossas forças para o Sucesso... Fui ao teu funeral na Yamaha, aquela que só tu da família, gostou! Lembras-te quando cheguei a casa no meu dia de anos em 2002 com a mota? O mano brigou, a mãe ficou irritada... e tu vieste ver o que se passava! Quando os teus olhos contemplaram a mota só disseste:"LINDA, parabéns Filha"... porque tu entendias que com ela, eu iria até ao Fim do Mundo...
 
Pai, as tábuas do teu caixão serão iguais às minhas... A tua paixão pela Amália é também a minha paixão... A tua mania de chegares a um encontro antes da hora marcada é também a minha... O teu bom humor é também o meu... Essa tua força de vencer na vida é também a minha... Sinto o coração vazio, sinto a cabeça desnorteada... Até sinto o cheiro a madeira! Porque tu Pai, viveste de madeira, ganhaste a vida com madeira e morreste envolto em madeira...
 
 
Mestre Fernando, eis aqui a tua Amália... a nossa Amália...  
 
 
por KF: 23h35
 
 
 

 
 
16 de Dezembro de 2009
 
A MINHA ESCOLA? NÃO...
 
 
A Minha Escola? A minha Escola não... Já não sei dizer nem sentir "Minha Escola"... Porque a Escola são Pessoas, e as Pessoas não são nossas... A Minha Escola "não"... porque nada me pertence! Não sei onde fica a Minha Escola. Não sei que código tem. Não sei se é grande ou pequena... Não sei se tem Projecto ou Plano. Já  vai longe os dias em que dizia: "A minha Escola é..." Tal como um corpo esangue ou um oceano vazio, assim me sinto quando me falam da "Minha Escola". Já não acredito na "Minha Escola"... Saio de mim e contemplo a "Minha Escola" e declamo: "Olhem...Olhem, a Escola vai Nua..."
 
Às vezes sinto que as Pessoas (eu, especialmente) ainda não entenderam que o ADN da Escola corre no sangue de cada um de nós! E quando um, ainda que seja insignificante aos olhos de poucos, é retirado, esse mesmo ADN desintegra-se! O mesmo acontece quando outro, ainda que desconhecido, chega a uma Nova Escola! O seu ser mistura-se (quer queiramos ou não) com o Ser "Escola".
 
Há quem chegue ferido da "Minha Escola" e repita incessantemente, não quero ter nem ser mais "Minha Escola"... Ironia ou sabedoria, não sei, o bálsamo sempre chega a quem de Verdade se entregou. E temos medo de voltar a pensar "Minha Escola". Hoje, saio de casa, de mochila às costas, cúmplice com a minha Yamaha, vazia de mim e vou para "A Escola"... Pelo caminho deixo pedaços do passado que o vento vai arrancando de mim e de mim, só me falto eu! Estaciono à porta da "Escola", entro, misturo-me no plasma dos sorrisos inocentes, deixo-me ir numas asas desconhecidas e saio! De volta para casa, mais alguns pedaços de ontem deixo que o vento arrebate, e dou por mim a pensar...
 
 
A "Minha Escola" afinal não existe!  
 
por KF: 22h06
 
 


 
14 de Novembro de 2009
 
CARÁCTER
 
 
A palavra Carácter deriva do latim characteris: sinal, marca, cunho, impressão, o que distingue um do outro, dignidade... Não se nasce com um determinado tipo de carácter, nem a genética fabrica "in vitro" (graças a Deus)! O Caráter forja-se... Acentuo este verbo porque forjar relaciona-se com ferro. E para forjar o ferro duro, pesado, informe, frio, só com fogo! O carácter de alguém forja-se nas fornalhas da vida... Quem não passa por este fogo abrasador, não tem capacidade de enxergar para além de si! É o fogo que faz de um comum mortal, um génio. E quando falo de génio, não fala de Galileu Galilei ou de Einstein.
 
Um génio é aquele que perante a adversidade mantém a sua opinião! Não anda ao sabor das conviniências nem do associativismo. Não procura ser reconhecido, embalado no ideal alheio. Um pessoa de characteris distingue-se pelo concordância do que pensa, do que diz e do que faz. Não se alia ao inimigo só porque o não consegue derrotar... Esses génios andam por aí, muitas vezes atrás de nós, e nem damos por eles. Esses génios são aquelas pessoas que quando partem deste mundo, a Terra e o Sol, páram por instantes, os seus movimentos de rotação e translação, em memória do seu caráter! E no entanto, o mundo e as pessoas que nele moram, continuam normalmente a sua vida rotineira como se nada tivesse acontecido...
 
Um pessoa de characteris olha nos olhos, fala sem palavras, chora sorrindo! Os que não forjaram o seu carácter são aqueles que se encostam a qualquer coisa, desde que chame a atenção de todos. O génio é o silenciado, o negligenciado, o zé ninguém que até se tem pena porque não tem nada para comer... Mas o génio, quando cai a noite, deita a sua cabeça sobre uma almofada ou uma pedra e consegue dormir o sono da consciência libertada. O sem carácter, toma xanax para drogar a vergonha e a consciência pesada, para então conseguir, por algumas breves horas, adormecer nos seus lençóis de seda...
 
A todos os génios que eu conheço (uns dois ou três), obrigada pelo privilégio de ter-vos conhecido!
 
por KF: 17h06
 
 


 
 
02 de Novembro de 2009
 
 
O (des) Encanto será um cyber-diário  de Estórias com "E" de Educação... Há momentos, na nossa curta viagem pela Escola, de vazios, de nadas, de escuros, de becos! Saramago escreveu em "Caim" o que ninguém ousou dizer ou até mesmo pensar... O facto é que o seu (des) Encatamento dos homens, da vida, de Deus é razão suficiente para gritar em palavras subtis e inteligentes, os (des) Encatamentos de todos nós. A nossa diferença de Saramago é que temos medo das "Fogueiras em São Domingos" da crítica do outro que se diz nosso colega...
 
Hoje, cheguei a casa (des) Encantada... comigo principalmente! Como que a ingenuidade me tivesse tocado na testa e me marcado como Caim de um pecado capital: dizer o que penso! Fugi da escola quando ainda nela estava, fugi dos outros e até fugi da minha própria sombra. Há momentos que o (des) Encanto é tão devastador que não conseguimos enxergar nada mais pra além da nossa dor.
 
Caim (des) Encantou-se...
Saramago (des) Encantou-se... 
 
E quem sou eu para não me (des) Encantar também?
 
por KF: 22h36
 
 
 
 
 
 
 
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